História

Na medida em que os balneários litorâneos despontavam como locais de veraneio, tornavam-se pontos de encontro de velhos amigos nas férias.

A partir dos anos 1920 até a década de 1940 os hotéis eram os ambientes mais convenientes para as reuniões amistosas.

Com o advento do litoral como local de segunda residência, surge a demanda por um espaço específico para a sociabilidade dos veranistas. No início da implantação dos loteamentos residenciais, os hotéis desempenharam um papel de suma importância na congregação da comunidade veranista que estava se formando. Entre os ambientes dos hotéis, cujas funções eram voltadas para a sociabilidade e entretenimento estavam as salas de jogos,salas de estar, salão de bailes e bar. Alguns hotéis ainda dispunham de cassino ou cinema.

A formação da maior parte das agremiações praianas entre 1936 e 1955 ocorreu nas dependências de hotéis. É o caso da SAPT (Sociedade dos Amigos da Praia de Torres), que foi estabelecida em 1936 no salão do Hotel Picoral; da SAT (Sociedade dos Amigos de Tramandaí), fundada em 1945 nas dependências do Hotel Corrêa; da APC (Atlântida Praia Clube), formada em 1955 no Hotel Atlântida; e da SACC (Sociedade dos Amigos de Capão da Canoa), oficialmente instituída em 1945 no Hotel Riograndense.

No Hotel Correa, sob a liderança do Dr. Mario Totta e na presença dos primeiros integrantes, surge a Sociedade Amigos de Tramandaí (SAT) no dia 05 de fevereiro de 1945. A sede principal do hotel era um sobrado construído, como de costume, em madeira, com alpendre na frente, guarda corpo resguardando o avarandado no segundo pavimento, telhado de duas águas e cobertura de zinco.

Hotel Corrêa, 1942. Fonte: Revista A Gaivota, nº 15, 1942

Logo suas reuniões sociais passam a se realizar no antigo Hotel Sperb, onde funcionava um cassino. A primeira sede da SAT foi aprovada pela prefeitura municipal de Osório em setembro de 1950. O projeto é constituído de somente uma prancha, com a planta baixa, dois cortes e uma fachada em estilo californiano (Figura 46). A representação gráfica, especialmente da planta e dos cortes, possui pouco refinamento, sem muitos detalhes construtivos.

A primeira sede da SAT foi aprovada pela prefeitura municipal de Osório em setembro de 1950. O projeto é constituído de somente uma prancha, com a planta baixa, dois cortes e uma fachada em estilo californiano. A representação gráfica, especialmente da planta e dos cortes, possui pouco refinamento, sem muitos detalhes construtivos.

Planta baixa da primeira Sede da SAT

Entre a aprovação do projeto da primeira sede e a inauguração da segunda, transcorreram-se apenas seis anos e três meses. As demandas de maior espaço e novos programas para entretenimento devem ter determinado a ?vida? curta do edifício. No balneário vizinho a SAPI (Sociedade Amigos da Praia do Imbé) já contava com uma sede mais ampla e com características formais da arquitetura moderna. O fato é que o sucesso da SAT possibilitou que já em 1955 a iniciativa da sociedade em construir estivesse em curso. Uma comissão formada por Ruy Tedesco, Gal. Jacob Sant?Ana Aude, Professor Pery Pinto Diniz da Silva e Frederico Célia, membros da diretoria da sociedade em questão, se articulou para a construção de uma sede maior, compatível com as aspirações arquitetônicas da SAT. Para ajudar nos recursos financeiros desta tarefa, a sociedade construiu, concomitante com a sede, e no terreno lindeiro, um edifício de apartamentos residenciais para a venda. A área destinada à construção da sede foi doada pela prefeitura de Osório em 7 de maio de 1955.

O prédio foi inaugurado em 12 de janeiro de 1957, com o projeto do arquiteto Nestor Hamlet Hilgert e implementado pela construtora Tedesco & Cia . A nova instalação é localizada na Avenida da Igreja - uma destacada via que percorre pontos de grande animação urbana da cidade e que liga a Avenida Emancipação à Avenida Beira-Mar.

SAT recém inaugurada em 1957

A construção do prédio da SAT se divide em três momentos. O primeiro refere-se ao projeto original, de 1957 e compreende o volume da esquina do conjunto. O segundo momento, trata da ampliação de 1978, que conforma a nova entrada do prédio e a continuação do salão de bailes. O terceiro momento ilustra a reforma do prédio, cobertura da piscina e a ampliação para a sala de ginástica. Este foge do escopo cronológico deste trabalho. As três etapas de construção foram planejadas por três arquitetos diferentes: primeiro Nestor Hamlet Hilgert, seguido por Guilherme Steigleder e, por último, Sebastião Castilhos.

Fases da construção da SAT

O programa do projeto original da SAT contém varanda, recepção, salão de bailes,restaurante, chapelaria, cigarraria, bar, copa, WCs, boate, sala de honra, sala de reuniões, secretaria e gabinete do presidente, além dos ambientes de serviço que atendem tanto o restaurante quanto a boate: cozinha, dispensas e dormitórios de serviço.

Planta Baixa da SAT. Projeto de Nestor Hilgert, inaugurado em 1957.

A parte mais antiga do prédio, inaugurada em 1957, de autoria de Nestor Hamlet Hilgert, implantada em forma de L, estava localizada na esquina da Avenida da Igreja com a Rua Riachuelo (Figura 49). A disposição do edifício é curiosa, pois não acata os alinhamentos viários. O volume mais extenso situava-se ao longo da Rua Riachuelo em disposição oblíqua, enquanto um volume curvo correspondente ao salão de bailes localizava-se de frente à Avenida da Igreja.

Na esquina, a entrada do edifico apresenta uma galeria de pilares inclinados que cria uma espécie de colunata que conforma um espaço transitório entre o exterior e o interior. Suprimindo uma coluna, o arquiteto definiu um vão de largura duplicada em relação aos outros, enfatizando assim o acesso cerimonial do edifício, às expensas da regularidade que se espera de um pórtico. À direita do pórtico, está o volume do salão de bailes, que em planta remete à forma de um leque. Na fachada frontal o volume é côncavo, emoldurando um chafariz composto por discos de diferentes tamanhos. Em planta, nota-se que os brises verticais da curva menor à frente se alinham perfeitamente com os localizados na curva maior, enfatizando assim uma sequência radial e explicitando a forma curva das paredes, tanto para o observador que se encontra no interior do salão, quanto para quem o vê desde a rua.

Fachada da rua Riachuelo. SAT projeto de Nestor Hilgert, inaugurado em 1957.

A fachada lateral se conforma por um grande plano retangular intersectado por uma moldura de contornos oblíquos que conforma uma marquise. O plano retangular apresenta pequenas aberturas quadradas dispostas em alinhamentos alternados. No plano emoldurado que o segue, um conjunto de aberturas formava uma fita horizontal com brises verticais. Também ali se localiza um acesso secundário ao interior do edifício conduz à boate ou à sala de honra. A marquise é cortada transversalmente pela torre estritamente ornamental, também revestida em pedras e com desenho de uma garça. À direita da torre, a lateral/mural é revestida em pedras e ornamentada com desenhos que lembram peixes. O arranjo do volume e das duas fachadas chama a atenção pelas decisões formais um tanto arbitrárias e pela falta de coordenação entre as partes.

O acesso cerimonial do edifício a partir do pórtico frontal leva a um hall de recepção. Ainda da varanda, acessa-se também o restaurante por uma abertura secundária na mesma face da entrada principal, esta última mais próxima ao salão de bailes. A recepção/hall indica dois ingressos: ao salão de bailes na direita e ao restaurante na esquerda. Este último pode ser isolado pelas portas deslizantes. Além disso, o hall contempla a sala do diretor, a chapelaria e o toillete - antessala para o banheiro social feminino.

Seguindo à esquerda o ambiente retangular do restaurante termina no grande balcão do bar que à direita, dá acesso ao salão de bailes. O restaurante e o bar são parcialmente ventilados e iluminados naturalmente na face longitudinal adjacente à Rua Riachuelo. Esta parede possui uma sequência de aberturas estreitas e altas, divididas horizontalmente em básculas. As aberturas intercalam-se com quebra-sóis verticais. A série de vidraças segue além do restaurante, abrangendo também uma circulação que acessa o banheiro social masculino e a sala de honra. No interior da boate, as excepcionais paredes em planos curvos demarcam diferentes recintos que conformam recessos, facilmente identificáveis em planta, pois formam uma casca interna com o desenho de uma nuvem estilizada. É difícil imaginar o papel dessas subdivisões no funcionamento da boate.

SAT em 1957.

As plantas da SAT datadas de 29/03/1973 e 10/10/1973 já contam com um ginásio de esportes e são assinadas pelo arquiteto Guilherme Aurélio Steigleder, enquanto a execução está sob a responsabilidade do engenheiro João Baptista Tedesco. Quatro anos depois, o mesmo engenheiro assina novamente os selos das plantas arquitetônicas, não só como responsável pela execução dos projetos de ampliação da sede, mas também como presidente da SAT.

Na sequência do salão de bailes, a ampliação inaugurada em 1978 se une ao prédio e segue com a mesma composição de brises verticais e com uma suave curva convexa concordante à curva côncava existente no perfil da fachada, até que a suavidade é substituída por curvas mais abruptas e as paredes adquirem volumes escultóricos, numa plasticidade diferente do projeto original.

Elevação frontal da ampliação da SAT projeto de Guilherme Aurélio Steigleder, inaugurado em 1978.

 

A entrada do salão principal passa a ser nesta nova edificação. Ela é distinguida pelo vão e pela escada, salientados nas laterais pelas paredes azuis curvilíneas e marcados por um volume escultórico mais alto ? uma torre cilíndrica cujo topo possui perímetro ascendente em espiral.

Nessa reforma, o ambiente da boate perde as paredes curvas que formavam o desenho de nuvem e ganha janelas verticais maiores, que se intercalam dissonantes entre as pequenas aberturas quadradas, já existentes no primeiro projeto.

Posteriormente à ampliação, em 1980 foram acrescentadas na parede azul, ao lado da entrada principal, esculturas brancas de nadadores.

Em 1999 o arquiteto Sebastião Castilhos é contratado para construir o pavilhão que abriga a piscina térmica e um segundo pavimento destinado à academia de ginástica, além de uma adequação às exigências de isolamento acústico, solicitadas pelo Ministério Público.

Nesta reforma a boate passa a ser o "salão amarelo".

Em meados de 2013 a SAT iniciou uma grande transformação, com a finalidade de restruturação física e administrativa.

Novas obras e modernizamos as nossas instalações para atender as necessidades dos associados, com instalações climatizadas e de acordo com as exigências legais como (PPCI) etc.

Restruturação da Sede em 2013.

Fonte:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Faculdade de Arquitetura
PROPAR Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura


Dissertação apresentada ao Programa de Pesquisa e PósGraduação em Arquitetura da Universidade Federeal do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para obtenção de título de Mestre em Arquitetura.

Marione Denise Otto